30 anos depois, cariocas voltam a pedir Diretas Já

Já era início de noite de domingo quando a praia de Copacabana relembrou seus melhores momentos de gente espremida cantando junto e esperançosa. Não era réveillon nem eram os antigos shows na praia. As milhares de pessoas que desde as 11h passaram pelo ato-show na Avenida Atlântica faziam coro com “Coração de Estudante”, cantada no trio elétrico por Milton Nascimento, querendo falar de uma coisa que está dentro do peito ou caminha pelo ar – mesmo que um ar de nuvens, em termos políticos e meteorológicos: eleições diretas.

Se uma parte dos cerca de 100 mil manifestantes em meio à neblina que se formou em Copacabana entoava, pela primeira vez, o grito pelas diretas, outra parcela presente no ato se via repetindo o pleito que em meados da década de 80 ganhou o Brasil. “Há 30 anos, derrotamos a ditadura civil-militar. Agora vamos derrotar a ditadura econômica que domina o Congresso Nacional, um Congresso que legisla de costas para a sociedade”, comparou o coordenador do MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto e integrante da Frente Povo Sem Medo, uma das organizadoras do ato, Guilherme Boulos.

Deputado estadual pelo PSOL, Marcelo Freixo também associou os dois momentos da história: “Na década de 80, tivemos uma campanha pelas diretas que não começou tão forte como esta. Esse ato é o primeiro de muitos”, projetou. Para Tarcísio Motta, vereador pelo PSOL Carioca, o que ameaça hoje a democracia “é Michel Temer e seus comparsas. Está em jogo a soberania popular”.

As falas de figuras da política nacional não destoavam das de dezenas de artistas que participaram do ato-show. De Teresa Cristina a Caetano Veloso, de Elisa Lucina a Mano Brown, os pedidos pela saída de Michel Temer eram sucedidos pela reivindicação das eleições diretas, na certeza de que o povo, mais do que o Congresso, tem legitimidade para eleger seu representante. “Quanto tempo minha esperança vai esperar no cais?”, provocou Elisa Lucinda em poesia que levantou a multidão. Já Wagner Moura, ator que foi mestre de cerimônias na parte da tarde do ato, criticou as reformas de Temer: “O ovo da serpente são essas reformas”, resumiu.

Avós que levavam seus netos ou netos que levavam seus avós: idade não era crachá para a manifestação deste domingo. A folha da juventude cantada no clássico de Milton “Bituca” Nascimento pode ter sido ontem referência a novos tempos que as ruas insistem em afirmar. Tempos de um país mais democrático, participativo e com as decisões tomadas a partir dos interesses da maior parte da população.

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