Mortalidade materna em debate

O Rio de Janeiro é a sexta pior capital para se engravidar, informaram as telas do plenário da Câmara Municipal da última segunda-feira, dia 29, durante debate público realizado pelo mandato da vereadora Marielle Franco. A falta de atendimento adequado em unidades de saúde resultando em mortes das parturientes é um dos motivos apresentados por especialistas que participaram do debate. Segundo o Ministério da Saúde, existe uma média de 60 óbitos maternos por 100 mil nascidos vivos. No Rio, 75% dessas mortes são de mulheres pardas e negras.

Doença hipertensiva, aborto, infecção, hemorragia e complicações obstétricas indiretas são as causas mais recorrentes das mortes dessas mulheres. Para a coordenadora de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, Arlanza Rebello, muitas dessas mortes são evitáveis. “Existem políticas especiais para esse enfrentamento, existem protocolos a serem seguidos, mas não recebem a devida atenção dos profissionais de saúde”, lamentou Arlanza.

De acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), existe uma forte relação entre a taxa de mortalidade materna com as condições sociais dessas mulheres, como acesso à escola e formação familiar. A capacitação dos profissionais de saúde também ganhou destaque durante o debate. Carla Brasil, superintendente de Hospitais Pediátricos e Maternidades da SMS, afirmou que muitas das mulheres que vieram a óbito nos últimos anos não chegaram ao CTI: “Elas não eram encaradas como uma situação de extrema emergência”.

A médica sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Leila Adesse destacou que 33 mulheres, a cada hora, morrem no mundo devido a complicações na gravidez. Apesar de este número ter diminuído 45% nos últimos 20 anos, Leila ressaltou que “o Brasil tem a quarta redução mais lenta de mortalidade materna, de 2000 a 2013”. A médica também chamou a atenção para o estigma que existe sobre as mulheres que abortam, o que aumenta o número de mortes.

Com relação ao aborto, Marielle lembrou de sua iniciativa legislativa para fazer valer a lei que permite o aborto em casos de anencefalia, quando a mulher é vítima de estupro e quando há risco de morte para a mulher. “Além da reversão desse quadro de mortalidade materna, precisamos da reversão desse campo conservador que nos assola”, disse a vereadora.

Também formaram a mesa de debate: a procuradora da República Roberta Trajano, que integra o Fórum Perinatal; a assistente social Luciene Lacerda, do Fórum de Mulheres Negras; e Mário Celso Gama Lima Júnior, subsecretário de Atenção Hospitalar.