O dia em que a multidão abraçou a política

Quatro anos depois das manifestações de junho de 2013, a memória daquele momento histórico ainda nos convida a refletir e buscar uma sociedade mais democrática

Na tarde do dia 20 de junho de 2013, uma multidão se concentrou em torno da Igreja da Candelária e, um pouco mais tarde, saiu em passeata rumo à Prefeitura. Calcula-se que mais de um milhão de pessoas tenham ocupado, na noite deste dia, a Avenida Presidente Vargas. Houve um momento em que a multidão tomava toda a extensão das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco. Como professor de História, tenho segurança em dizer que essa foi a maior manifestação política da História do Brasil. É claro que, se considerarmos a proporcionalidade da população, podemos pensar em outros episódios tão grandes quanto, mas, em números absolutos, nenhuma outra manifestação, no Brasil, superou essa que ali estava. Eu estava lá. Participei daquele ato e tenho muito orgulho disso.

Temos que nos perguntar sobre o que aprendemos com o junho de 2013. Para mim, seu legado ainda está em disputa e podemos aprender muito com o que aconteceu há quatro anos. Nesse dia, imaginem vocês, o início da noite, para mim, era de euforia, mas também de medo, incerteza, coragem no enfrentamento à brutal repressão que a multidão sofreu.

“Não é só por R$ 0,20”, dizia a frase que se tornou síntese ou moda para se falar dos protestos de junho de 2013. Sem dúvida, não foi só por isso. O estopim dessa bomba foi o aumento das passagens de ônibus, mas essa foi apenas uma parte visível do conjunto de insatisfações que levou um milhão de pessoas pra rua. É preciso que se diga que a quantidade de pessoas ultrapassou a que normalmente a esquerda ou a direita leva para as ruas. Aliás, antes de junho de 2013, independente da coloração política, havia muita dificuldade de ter as ruas como espaço político de debate no Brasil.

Afinal, por que as pessoas foram para a rua? Havia uma insatisfação generalizada com o conjunto de direitos sociais negados historicamente a esta população. “Da Copa eu abro mão. Quero dinheiro para saúde e educação”. Essas eram outras palavras de ordem que mostravam a indignação com um símbolo, a Copa do Mundo, que custou milhões e milhões de reais. Enquanto isso, escolas, postos de saúde e hospitais estavam caindo aos pedaços. Já suspeitávamos, na época, que as obras dos estádios para a Copa estavam cercadas de corrupção. E olha que ainda estavam por vir as delações das grandes empreiteiras, que demonstraram a quantidade de dinheiro público que foi, de fato, desviado para a construção de um megaevento que trouxe pouquíssimo legado para o Brasil e para o Rio de Janeiro.

Insatisfação Generalizada

Quando se estava na Avenida Presidente Vargas, a discussão era sobre, inclusive, qual modelo de país e de sociedade que queríamos. Era uma insatisfação generalizada porque, depois de quase 30 anos da Nova República, a democracia brasileira era absolutamente limitada. Os vários governos que se sucederam optaram por um modelo de desenvolvimento que garantia até uma ascensão pelo consumo, mas que não fez nenhuma das reformas estruturais necessárias para o país.

A multidão que estava nas ruas gritava contra os governos de Eduardo Paes, de Cabral e de Dilma. Nesse caso, os três governos estavam sendo responsabilizados pelo povo por um conjunto de direitos que lhe era negado o tempo todo. Os governos – em especial, esta cobrança vai para os governos petistas, que resolveram manter durante mais de 10 anos um modelo de desenvolvimento que privilegiava o acesso a bens materiais e não a bens sociais – não enfrentaram nenhuma das estruturas injustas do país que ocasionam a desigualdade social. Não houve nenhum empenho para democratizar de fato o poder nesta sociedade.

Cabral, que seguia à risca o projeto político do PMDB, propunha para o Estado do Rio de Janeiro um modelo de desenvolvimento baseado numa economia cara, excludente, autoritária, socialmente irresponsável. Tudo isso estava na Avenida Presidente Vargas, no dia 20 de junho de 2013. Essa talvez tenha sido a última oportunidade que os governos petistas e o do PMDB do Rio de Janeiro tiveram para responder à indignação das ruas com o que era necessário naquele momento: mais democracia e mais transparência.

Mas não foi essa a resposta do poder público. Antes mesmo desse dia histórico, na final da Copa das Confederações, que acontecera na semana anterior, as pessoas foram bombardeadas com gás lacrimogêneo e gás de pimenta em plena Quinta da Boa Vista. Já no 20 de junho, a polícia militar – a de Cabral, a de Beltrame – perseguiu a manifestação pelas ruas do Centro, da Tijuca, de São Cristóvão e da Zona Sul. Eu mesmo caminhei da Prefeitura até Laranjeiras, sendo bombardeado. A polícia sequer deixava que as pessoas saíssem da manifestação. Naquele dia, a polícia não estava lá para dispersar a multidão, e sim para bater nos manifestantes, para impedir que a manifestação democrática acontecesse.

A truculência do poder público

A partir dali se criaria a narrativa dos vândalos que perturbam manifestações pacíficas. Ao contrário, o que nós testemunhamos foi a ação da polícia, sob ordens específicas para perseguir todos os militantes, para impedir que a manifestação acontecesse. No mesmo contexto, foram aprovadas a Lei Antiterrorismo, a ideia da garantia da lei e da ordem, a Lei Geral da Copa, com a aprovação do governo federal de Dilma Rousseff. Na Alerj, Cabral chega a propor a criminalização do uso de máscaras. O poder público só soube responder com truculência, violência e repressão aquilo que era uma manifestação de indignação e de insatisfação.
Em manifestações seguintes, uma faixa dizia: “A polícia que reprime na avenida é a mesma que mata na favela”. A polícia, aliás, continua matando nas favelas cariocas. Foi também por isso que os levantes de junho de 2013 incorporaram a palavra de ordem “Cadê o Amarildo?”, uma discussão fundamental sobre a falência do modelo das UPPs. As manifestações incorporaram um debate necessário, que até hoje não foi acabado: o da desmilitarização da polícia. Esta é uma discussão ainda necessária porque, ao tratarmos da desmilitarização, estamos refletindo sobre a democracia.

Em 2013, os mecanismos formais da democracia brasileira se revelaram insuficientes. Hoje, essa insuficiência é constatada nada mais, nada menos, na insatisfação com o Congresso mais corrupto da História; com o governo ilegítimo e golpista de Michel Temer. E segue o barco da insatisfação das pessoas… que não reconhecem sequer as eleições como uma saída para a crise política que hoje estamos vendo. Por isso, 2013 marca o processo do fim da Nova República: é o desencanto com a lógica eleitoral. Isso porque democracia é muito mais que eleição. Eleições absolutamente ilegítimas, como aconteceram, não levam à real transformação da sociedade.

As ruas não pediram o golpe

Esse processo de desilusão ainda está em curso. Mas acho um equívoco quando o ex-prefeito de São Paulo diz que, em 2013, nasciam as bases do golpe. Não! Os processos são absolutamente distintos! Em 2013, por mais heterogênea que fosse aquela manifestação, lá estavam pautas consagradas da esquerda, que pediam reformas e direitos humanos. A direita estava presente naquela foto? É claro! Aqueles que, por exemplo, atacaram bandeiras de partido, muitas vezes, com forte coloração fascista, lá estavam. Mas o tom geral daquela manifestação era de indignação daqueles que queriam mais direitos, mais democracia – e não mais autoritarismo –; que pediam mais participação; negavam o processo de alguém que se disse de esquerda, chegou ao poder e não mexeu nas estruturas reais de poder desse país – do poder do agronegócio, do grande empresariado, dos grandes banqueiros.

As respostas às reivindicações de junho de 2013 ainda não foram dadas, como muitas análises estão sendo feitas. Ao reverso disso, o atual governo – fruto de tudo aquilo que junho de 2013 negava – apresenta reformas que retiram direitos. No lugar de uma reforma política que ampliaria a democracia, da reforma educacional que garantiria educação de qualidade e de uma reforma tributária que faria quem tem mais pagar mais, apresentam uma reforma trabalhista e uma da previdência que retiram ainda mais direitos. Por isso, lutamos contra este governo. Por isso, dia 30 de junho será mais um dia de greve geral.

Em 2018, quando voltarmos a pensar num projeto de país, temos que retomar a pauta de 2013 para pensar sobre o que fazer para que o país, de fato, tenha participação política. É preciso que a gente retome essa pauta para recuperar o debate fundamental sobre que democracia temos hoje, que sistema político e que Brasil construiremos, que modelo de desenvolvimento defenderemos, que tipo de direitos para as pessoas nós correremos atrás.

Liberdade para Rafael Braga

Mas agora também é o momento de lembrar dos quatro anos da prisão de Rafael Braga. Com toda a repressão que ali estava, a única pessoa que permanece presa depois dessa manifestação é um negro, jovem, catador de rua que portava apenas uma garrafa de desinfetante. Isso diz muito, novamente, sobre a nossa democracia, que encarcera jovens negros, que não tem pudor de condenar à revelia alguém que não tinha nenhuma relação direta com a manifestação que lá estava. Por isso estamos em campanha para libertá-lo. Por ser um símbolo do autoritarismo que preside a nossa democracia até hoje, ou seja, nossa pseudo-democracia, eu e os companheiros Marielle Franco, Renato Cinco, Paulo Pinheiro e David Miranda apresentamos à Câmara Municipal projeto que considera o 20 de junho como o Dia Municipal de Luta Contra o Encarceramento da Juventude Negra. Queremos que a data fique marcada no calendário oficial da cidade como um dia de reflexão sobre o injusto sistema prisional que temos.

Nós do PSOL construímos uma identidade com junho 2013. Junho de 2013 está presente em nós. Não negamos isso e reivindicamos essa memória como elemento fundamental dos desafios que temos para enfrentar na sociedade brasileira. Os desafios da democracia se resolverão com mais democracia e não com menos. Por isso, vamos construir, a partir do legado de junho, uma sociedade mais justa, mais democrática e é disso que precisamos, junto com os que lutam, seja nas ruas, seja em todos os movimentos sociais que ainda hoje querem um mundo melhor, pois só a luta muda a vida.