Movimentos cobram preservação de bens culturais no Porto

Sobrados centenários caindo aos pedaços; um centro cultural que é referência na história da escravidão e não vê a cor do dinheiro do Estado; um quilombo reconhecido nos âmbitos municipal, estadual e federal, mas sem condições de manter suas famílias no território. O centro cultural é o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), o quilombo é o da Pedra do Sal (foto), que além de já integrar área protegida pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), foi reconhecido como Área de Especial Interesse Cultural (Aeic) em 2014.

Esses foram alguns dos problemas apontados por representantes de movimentos sociais durante audiência pública sobre a zona portuária do Rio e suas políticas culturais, realizada na Câmara Municipal na última sexta-feira, dia 11.

“Apesar de todo reconhecimento, o Quilombo da Pedra do Sal, que é formado por 25 famílias, hoje só tem três delas ocupando seu território”, alertou o presidente do Conselho Diretor do Quilombo da Pedra do Sal, Damião dos Santos, durante a audiência, promovida pela Comissão de Cultura. Mesmo dando a alcunha de Porto Maravilha à região, a prefeitura, segundo Santos, age com descaso não apenas com relação ao quilombo, mas com tudo que representa a história afro-brasileira na região: “Hoje temos um sítio arqueológico reconhecido como patrimônio mundial, mas à mercê do setor imobiliário, que explora nossa região, e o poder Executivo, que dá as costas para a região”.

A audiência teve como objetivo contribuir para as políticas culturais a serem implementadas na região pela prefeitura. O anúncio da criação do Museu da Escravidão e da Liberdade (MEL) foi uma das motivações para a realização da sessão.

O vereador Tarcísio Motta, que é membro da comissão, destacou a importância de se discutirem as prioridades do local: “As disputas pela memória são fundamentais na constituição da identidade da cidade e do país. O fato de estarmos aqui hoje discutindo a Pequena África e os projetos de construção de um museu na região é uma importante vitória do movimento negro na cidade”.

Lembrando que o porto do Rio foi o que recebeu o maior número de africanos raptados e retirados de seu território, Tarcísio destacou que “o Rio, Cidade Maravilhosa, é também Rio, Cidade Negra” e que é imprescindível instalar a CPI do Porto Maravilha, requerida por seu mandato, para que se investiguem os percursos das verbas destinadas à região.

Representantes de movimentos sociais e atividades culturais realizadas na região tiveram a oportunidade de falar diretamente com a secretária de Cultura, Nilcemar Nogueira, que estava presente na audiência, sobre os principais problemas enfrentados. Ainda sem uma resposta clara sobre o que a prefeitura vai fazer para melhorar a situação do quilombo, do IPN e do casario histórico da região, a secretária ressaltou que o MEL “não será um museu nos moldes tradicionais”:

“Será um museu com depoimentos dos que guardam essa memória, um museu aberto. Um museu que conte a história da culinária africana, mas que o visitante possa também experimentar essa comida”, exemplificou Nilcemar.

A audiência também contou com a presença, à mesa, do presidente da comissão, vereador Reimont, da diretora do IPN, Merced Guimarães, da Ekedi Maria Moura, de Marcelo Dias e Silvia Mendonça, do Movimento Negro Unificado, e Rilden de Albuquerque, gerente de desenvolvimento econômico e social da Companhia de Desenvolvimento Urbano da região do Porto do Rio de Janeiro (Cedurp).

#EquipeTarcísioMotta
#SóALutaMudaAVida