Cem anos da Revolução Russa – a transformação radical pela maioria e com a maioria

Passados exatos cem anos de uma longínqua tomada do Palácio de Inverno, o que a Revolução Russa, como experiência histórica, estratégica e política tem a nos dizer? Qual é o legado dessescem anos?

A Revolução Russa foi um dos eventos políticos mais importantes, influentes e progressistas do século XX. Apesar do destino trágico da União Soviética, nenhum outro evento no século passado teve um impacto de tão grande alcance sobre as vidas de centenas de milhões de pessoas em todas as partes do planeta.

A conquista do poder político pelos Sovietes (organização de conselhos operários) em outubro de 1917 marcou um novo estágio da história mundial. A derrubada do governo provisório burguês provou que uma alternativa ao capitalismo não era um sonho utópico, mas sim uma possibilidade real que poderia ser alcançada por meio da luta política consciente da classe trabalhadora.

A Revolução de Outubro confirmava, na época, a concepção materialista da história formulada por Marx e Engels no Manifesto Comunista. O estabelecimento do poder pelos sovietes sob a liderança do partido bolchevique parecia legitimar um elemento essencial da teoria histórica de Marx: “que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado…”. O medo desse modelo transformou profundamente as classes abastadas, que, em diferentes países da Europa,veio a patrocinar o fascismo como solução para combater “a ameaça vermelha” aninhada em seus próprios trabalhadores.

Podemos afirmar que o estabelecimento do primeiro estado operário inspirou um imenso desenvolvimento na consciência de classe e na consciência política da classe trabalhadora em todo o mundo. O evento marcou o início do fim do antigo sistema de governo colonial estabelecido pelo imperialismo no final do século XIX, além de germinar um movimento mundial revolucionário de massas. A sombra da revolução bolchevique será responsável pelos principais ganhos sociais conquistados pela classe trabalhadora internacional, incluindo a formação de sindicatos industriais pelo continente americano na década de 1930, a implementação das políticas de bem-estar social do pós-Segunda Guerra Mundial e até mesmo o processo de descolonização.

Contexto histórico e momentos-chave

A Rússia Czarista do início do século XX era uma nação atrasada em comparação com as outras grandes potências imperialistas. Sua população de maioria rural havia saído recentemente do regime de servidão medieval para encontrar uma alternativa ainda pior na exploração capitalista do trabalho camponês. A pequena porção de trabalhadores urbanos vivia normalmente dentro das fábricas, dormindo em sacos de palha no intervalo entre os trabalhos. A jornada podia chegar a 15 horas, e frequentemente as trabalhadoras eram obrigadas a ter seus filhos no meio da própria fábrica.

Agravava esse contexto o início da Primeira Guerra Mundial, um conflito fundamentado no imperialismo e no nacionalismo dos países europeus que teve nas próprias ambições do Czar Nicolau II uma de suas justificativas mais importantes. A guerra que massacrou 17 milhões de pessoas trouxe aumentou a miséria para a já empobrecida Rússia e colocou em contato direto os trabalhadores do campo e com os da cidade, que agiam como soldados para o imperialismo czarista.

Um dos principais pensadores da revolução e líder do Exército Vermelho, Leon Trotsky, afirmou no primeiro ano de guerra, em 1915: “a classe trabalhadora que esteve presente na ‘escola da guerra’, sentirá a necessidade de usar esta mesma linguagem de força tão breve um obstáculo grave o suficiente os encontre em seu próprio país”. Dois anos depois era justamente isso que viria a ocorrer.

Uma das características mais marcantes da Revolução Russa foi o fato de ela ter se iniciado no dia das mulheres, 23 de fevereiro (nosso 8 de março pela diferença de 13 dias). As trabalhadoras têxteis deram início a uma greve, que rapidamente se estendeu aos metalúrgicos e a outros operários de toda Petrogrado. A participação de militantes feministas, como Alexandra Kollontai, foi fundamental para fazer da futura União Soviética o primeiro país a buscar uma verdadeira igualdade entre gêneros, sendo pioneira em direitos, como o aborto e o divórcio.

É fundamental também combater a visão de que a Revolução de Outubro não passou de um golpe que não tinha apoio popular. Em 1917, o partido bolchevique transformou-se, em Petrogrado, em um partido político de massas e que, ao invés de ser um movimento monolítico atrás de um grande líder, Lênin, apostava nos sovietes como instrumentos da democracia operária. Dessa forma, a liderança dos bolcheviques foi horizontalizada em diferentes fronts, cada umdeles ajudou a moldar estratégias e táticas revolucionárias.

O sucesso dossovietes de Petrogrado na luta pelo poder após a queda do Czar, em fevereiro de 1917, deu-se em grande parte devido à sua flexibilidade organizacional, abertura e capacidade de resposta às aspirações populares, bem como sua extensa composição, que ia de camponeses até trabalhadores de fábricas, soldados da guarnição da capital e marinheiros da Frota do Báltico.

A Revolução de Outubro foi menos uma operação militar e mais um processo gradual enraizado na cultura política popular, que soube aproveitar o desencanto generalizado com os resultados da revolução de fevereiro e, nesse contexto, respondeu às aspirações das massas de forma dinâmica: saída imediata da Primeira Guerra Mundial, pão, terra para o campesinato e, mais importante, um governo que visava trazer a democracia operária feita pela base, através de sovietes multipartidários. Estas serão, inclusive, as transformações realizadas pelos primeiros decretos da revolução vitoriosa, no dia 7 de novembro de 1917, pelos sovietes de Petrogrado.