Qual deve ser o preço justo das passagens de ônibus?

Nos últimos meses, a justiça obrigou à prefeitura do Rio a reduzir o preço da tarifa por duas vezes. De R$ 3,80, hoje, ela custa R$ 3,40. Isso, segundo a justiça, é fruto de dois reajustes anuais ilegais, aprovados pelo ex-prefeito Eduardo Paes em sua gestão. A Rio Ônibus, sindicato patronal das empresas de ônibus da cidade do Rio, afirma que esse preço da passagem está colocando o sistema de transporte do Rio em colapso. O mandato Tarcísio Motta afirma que ela mente. Inclusive, escrevemos uma carta aberta à população carioca contrariando cada um dos pontos em que a Rio Ônibus mentiu em seu comunicado.

A secretaria de transportes da cidade do Rio (SMTR) divulgou estudo que a passagem poderia ser ainda mais barata, cerca de R$ 3,09. E ainda, um custo operacional de apenas R$ 1,80. Apesar disso, a prefeitura cedeu a pressão dos empresários e fará uma auditoria independente para calcular o preço das passagens para 2018. Ou seja, ainda está em aberto o debate sobre o valor da tarifa na cidade do Rio.

Entretanto, temos um problema sério. Afinal, quem fornece os dados para essa auditoria independente são as próprias empresas de ônibus e os consórcios. Gerando assim, um vício de origem nesse cálculo. Nosso trabalho na CPI dos Ônibus, na Câmara Municipal, já demonstrou que há muitas fraudes no repasse desses mesmo dados. Por exemplo, as despesas administrativas e financeiras – que ninguém sabe quê despesas são essas, estão 500 vezes acima do que foi acertado em contrato. E aqui está a verdadeira caixa-preta dos transportes do Rio. São dados que não são entregues, mas mesmo assim, influenciam o preço da tarifa, pois são as próprias empresas que apontam quais os custos que possuem para manter a frota nas ruas. Se tirarmos essas despesas financeiras ‘misteriosas’, sem dúvida, a operação do sistema daria lucro, muito lucro.

As páginas policiais estão nos mostrando todo um esquema de corrupção que tem no transpote uma espécie de ferramenta que garante o pagamento de propina de empresários a políticos que, por sua vez, favorecem consórcios e companhias nas casas legislativas e no executivo. O dinheiro da propina vem do bolso do trabalhador. Toda vez que ele roda a roleta, está pagando o que está embutido nesta passagem cara um valor pra caixinha da propina da Fetranspor. E é sobre isso que precisamos tratar de fato: o escuso esquema da máfia que controla o transporte coletivo no Rio de Janeiro. É preciso abrir a caixa-preta para que possamos provar que a passagem poderia ser bem menor do que o valor pelo qual é cobrada atualmente. Assim, também poderíamos ter um transporte com melhor qualidade e que desse acesso aos moradores do Rio a serviços e direitos que acabam sendo prejudicados com um sistema caro e ineficaz.

As ações da justiça, a CPI na Câmara e que está sendo aberta na Alerj demonstram que a máfia dos transportes no Rio não é intocável. Entretanto, para que a gente possa acabar com o poder dessa quadrilha, nós precisamos da mobilização. Recentemente, para prolongar o prazo da CPI nós contamos com uma gigantesca moblização que constrangeu os outros membros da comissão que ficaram obrigados a dilatar os trabalhos de investigação. E, no próximo período, precisaremos de contar com a sua ajuda. Precisamos pressionar os agentes públicos para que tomem atitudes que retirem o poder da máfia dos transportes. Nós seguiremos na tentativa de abrir a caixa-preta e divulgar os dados para que o sistema se torne cada vez mais transparente para todos.

Almejamos uma mudança completa nos transportes do Rio. Na forma como esse sistema é concedido. Não dá mais para termos uma caixa-preta e um sistema de ônibus controlado por uma máfia, impedindo que as pessoas tenham o direito de ir e vir na cidade e impedindo que elas tenham o mínimo de qualidade nos transportes públicos do Rio. É a pressão popular que nos permitirá avançar nessa importante luta, que mexe com a vida de milhões de cariocas. Precisamos derrotar de vez a máfia dos baratas que só entendem o transporte como forma de lucro pessoal, enquanto desejamos defender o transporte como direito, direito de todos.