Na encruzilhada da democracia

Desde a campanha de 2012, andamos com um verso de Bertold Brecht estampado no peito: “Nada deve parecer impossível de mudar”, acreditando que é possível construir novos marcos na política, especialmente no Estado do Rio de Janeiro, para reduzir a desigualdade social e garantir trabalho digno, educação, saúde e segurança para todos. Agora, outros versos do mesmo Brecht circulam pelas redes sociais, mas, em vez de esperança, chegam como um alerta: “Primeiro levaram os negros, mas não me importei com isso. Eu não era negro”. Brecht segue as estrofes contando que depois levaram os operários, prenderam os miseráveis e agarraram uns desempregados. E encerra: “Agora estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.”

Recorrer ao compartilhamento desse texto neste período eleitoral é, além de necessário, um sintoma do quanto a democracia do nosso país está doente. Não me refiro apenas à política institucional, falo do seu sentido mais amplo, que articula assuntos públicos, relações coletivas, a sociedade. A escalada de violência na política que estamos vivendo é a prova disso: execução de Marielle Franco, tiros à caravana de Lula, assassinato de Mestre Moa do Catendê, facada em Jair Bolsonaro e uma série de agressões a mulheres, negros, LGBTs, militantes e jornalistas. Os números assustam: mais de 130 profissionais da imprensa agredidos em contexto eleitoral, segundo a Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos.  Mesmo assim, com todos esses fatos, há quem defenda o discurso de ódio.

Já vivemos, na história do Brasil recente, um tempo sombrio no qual as liberdades de expressão e de imprensa foram sufocadas, notícias e opiniões negativas sobre o governo eram censuradas, mas há quem queira que o Brasil volte a ser como era há 50 anos. Naquele mesmo tempo sombrio, manifestar críticas aos poderosos virava caso de polícia, cárcere, tortura e morte, mas há quem exalte torturador. Hoje, nossa juventude está sendo morta a tiros a caminho da escola, do trabalho, da festa, de casa, mas há quem defenda que haja mais armas.

Enfrentar essa onda de ódio não é uma tarefa simples, mas nunca foi fácil estar do lado dos que são oprimidos pelos desmandos do poder. Estar aqui deste lado significa enfrentar os que se acham melhores que a classe trabalhadora, afundados em sua arrogância, mas munidos com dinheiro, armas e canetas prontas para assinar disparates arbitrários. Estar aqui deste lado também significa ter solidariedade, colocar-se no lugar do outro e dar as mãos aos companheiros, sem esquecer que a democracia é resultado de muitas lutas e que cada direito conquistado é fruto de movimentos sociais e de vidas que foram e são incansáveis em suas reivindicações. Sua manutenção deve ser assegurada com a mesma força com que a conquistamos e, por isso, é preciso direcionar nossa energia e nossa coragem para defendê-la.

Não podemos ser omissos. Quem respeita a vida e a liberdade deve resistir no voto e nas ruas. Como diz o samba campeão da Mangueira, “é na luta que a gente se encontra”.

Tarcísio Motta é professor e vereador do PSOL Carioca. Foi candidato ao governo do Rio de Janeiro em 2014 e 2018