Cuidando de quem? Faltam vagas nas creches do Rio e cariocas enfrentam distância e horário encurtado

Crivella prometeu 20 mil vagas até 2020. Porém, no ano passado o município perdeu 5 mil. Hoje, 40 mil crianças entre 0 e 3 anos estão fora das unidades de Educação Infantil

No próximo dia 11 de fevereiro, a educação municipal volta ao seu cotidiano nas unidades escolares do Rio. Na manhã da segunda-feira trabalhadores da educação e mães, principalmente, mudam a rotina dos último mês e se encontram novamente. Entretanto, antes mesmo do início do período de volta às aulas, algumas famílias estão desistindo de levar seus filhos pequenos para as creches, mesmo com vaga garantida. Isso acontece por conta da distância, do custo disso e das dificuldades com o trabalho acarretadas com o tempo de deslocamento. O novo horário divulgado pela SME – Secretaria Municipal de Educação, das 8h às 16h, está deixando muita gente revoltada e preocupada com o início do ano letivo.

Segundo a Defensoria Pública, um terço dos carioquinhas entre 0 e 3 anos que precisam do serviço público estão fora das EDI – unidades de Educação Infantil. O número corresponde a 40 mil crianças cadastradas a ter o direito assegurado, mas que não conseguem vaga na rede municipal. Outras 75 mil estão em 530 creches, sendo cerca de 170 particulares e, portanto, instituições conveniadas que recebem verbas ou compensações públicas.

Além de atrasar a entrada de crianças para o mundo da convivência com o diferente, os motivos para a desistência só aumentam a distância social em uma cidade partida e repartida pela diferença de renda e de direitos. Para muitas famílias, ter ou não ter um filho matriculado em uma creche pública é fundamental, porém isso atinge de forma diversa conforme a classe social; se os responsáveis pelo trajeto são mães, pais, avós ou avôs; moradores das zonas norte, oeste e favelas. Não à toa, são as dificuldades enfrentadas por trabalhadoras e sobretudo, negras e moradoras de áreas menos privilegiadas, que estão nos relatos mais contundentes sobre a situação das vagas e do horário de funcionamento das creches espalhados nas redes sociais, nos depoimentos à defensoria e em matéria do RJTV2 de 3 de fevereiro.

Trabalhadoras enfrentam dificuldades

Em uma mensagem que chegou ao gabinete, a tia de uma mãe que não conseguiu vaga perto de sua residência conta a situação:

– Minha sobrinha tem 22 anos e uma pequena de 3 anos e meio. Ela trabalha informalmente vendendo caldos na zona norte do Rio. Ela inscreveu a menina e a vaga destinada foi para Bangu. Como que uma moça com subemprego vai gastar tanto dinheiro de passagem pra levar a criança na escola pela manhã e pegar antes do almoço?

Em outra mensagem, uma mãe conta sobre a desistência de vagas por conta da distância e dos novos horários que a prefeitura impôs:

– Na creche do meu bebê, apenas na sala dele, já foram 3 famílias que desistiram de assumir a vaga esse ano porque se torna absolutamente incompatível com o (horário de) trabalho das famílias. Com a redução do horário da saída, eu teria que deixar meu trabalho antes das 15:30h todos os dias para buscá-los. É sempre chegar com os portões fechando, isso tendo deixado os dois às 8h. É desesperador. Quem consegue trabalhar até às 15h, 15:30h?

Promessas ao vento

Em 2016, Crivella prometeu em seu programa de que governo que iria oferecer 20 mil vagas em creches. Entretanto, nesse último ano de governo aconteceu o contrário. Em 2018, houve redução de 5 mil vagas para crianças entre 0 e 3 anos no município. Agora, em nota, o prefeito afirma que, por PPPs (Parcerias Público Privado) abrirá 20 mil vagas (DE NOVO) até entregar a prefeitura em 2020. Assim, duas perguntas se fazem fundamentais:

1. Crivella, se não a prefeitura não conseguiu em quatro anos, vai oferecer 20 mil vagas em dois?

2. Crivella, as 20 mil vagas (novamente) prometidas levam em consideração as 5 mil perdidas? O carioca pode contar com 25 ou esperar 15 mil?