Casa é casa, não é base militar

Carlos Gonçalves, morador da maré.

“Olá X. Boa noite. Quero e preciso desabafar… Estou dentro do ônibus indo embora do trabalho hoje e recebo uma ligação da minha cunhada dizendo que os policias arrombaram o portão e minha casa, entraram e reviraram tudo. Minhas fotos estão no chão, uma parte do guarda roupa não tem mais nada e a minha geladeira está aberta. Ela disse que foi na laje e está cheio de cápsulas no chão e eles quebraram o muro da minha laje pra ficar melhor de atirar. Eu e meu marido saímos para trabalhar 7h da manhã e temos um filho de 3 anos que está com pânico de voltar para a casa que moramos. (…) Quero reivindicar meus direitos. Sou trabalhadora e acho que nao mereço isso. Luto muito para ter minhas coisas”. Moradora da Alvorada, Complexo do Alemão.”

O relato acima, que denuncia a ação de forças policiais transformando a casa de moradores em base militar, mostra que a política das UPPs nunca teve a ver com a “paz”, mas sim com o controle militar da pobreza, em especial, das favelas. A situação do Complexo do Alemão, desde a ocupação pirotécnica por parte da polícia em 2010 à conjuntura atual, mostra que a propaganda vendida sob a ótica da “paz” sucumbe diante da repressão histórica que a favela sofre com as forças policiais.

Comandada pelo major da UPP de Nova Brasília, Leonardo Zuma, a ação que invadiu casas na Alvorada obrigou o Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria do Rio (Nudedh) a encaminhar uma recomendação à Secretaria Estadual de Segurança e ao Comando Geral da Polícia Militar, exigindo que as casas de moradores fossem desocupadas. O incrível é que uma recomendação dessas, que versa sobre um fato totalmente absurdo, demorou semanas até ser cumprida.

Diz a lei que “o lar é um asilo inviolável”, mas parece que esse direito não funciona na favela. O que faz com que esse pedaço de terra, que ocupa um terço do Rio de Janeiro, não seja respeitado? Por que não há uma comoção social em torno de tantas arbitrariedades e violências? Talvez a nossa resposta esteja em uma literária negra e favelada que, nos anos de 1960, escreveu:

“22 de Maio de 1960

– Ela é escritora da favela.

Ouvi uma pergunta irônica:

– A favela não dá escritor. Dá ladrão, tarado e vadio. Homem que mora na favela, é porque não presta”

Carolina Maria de Jesus, trecho do livro Casa de Alvenaria

Lutamos contra o fardo de a favela ser vista como a “não cidade”. Lutamos para que nossos corpos que caem, a maioria negros, não sejam ignorados. Lutamos pelo direito mais básico que existe: o direito de existir.